Ela saiu do carro e de bolsa ao ombro seguiu para a loja.
Ele saiu da loja apressado e a correr ainda teve tempo de lhe dizer´: “Olá,
Patrícia”. Ela, não esperava aquilo, sorriu e respondeu com um simples “Olá”, e na esperança que ele
tivesse ouvido. O facto dele ter pronunciado o seu nome deu um valor maior
ao cumprimento. Ela não pronunciou o nome dele mas lembrava-se bem daquele
rapaz. Vinte anos depois, ele ainda se lembrava dela e tinha-a reconhecido. Bom,
não era difícil, pensou ela. Ela estava "quase" na mesma, como muitos diziam, apesar
dela saber que os anos não perdoavam. Ela reconhecia que estava bem e que ele…
estava muito melhor. O rapaz de acne na cara que a adorara e quisera namorar
com ela,aos quinze anos, era agora um homem muito bem-apessoado: alto, elegante
e mais atraente do que nunca. Ela sabia que ele tinha o seu negócio próprio mas
nada mais sabia. Ele, dela, sabia quase tudo. Num meio pequeno as notícias
sabem-se todas. Ela como não vivia naquele meio desconhecia a vida dele, além do
seu trabalho. A ironia era grande: ele fazia, exactamente, o mesmo que o marido
dela. A vida corria. Corria para eles como corria para todos os outros. Mas ele
só queria que corresse para um dia. O dia em que a conseguisse conquistar. Ele parecia
ter adquirido a paciência toda do mundo. Esperar era tudo o que o fazia andar.
Sabia que, a cada passo que dava, ficava mais próximo dela.
…
As vezes que se cruzaram, naquele mesmo sítio, começaram a
aumentar. Se marcassem, certamente, não sairia tão bem. Ela, por acaso, ao sair
do trabalho para o almoço, muitas vezes, via-o passar na rua em direcção a
casa.
…
Ela desfez a curva, deu o pisca para estacionar e avistou o
carro dele ali estacionado. Parou mais à frente e mesmo em frente à montra da
loja. Olhou em frente e ele estava, de olhar fixo nela, do lado de dentro do
balcão com o dono do estabelecimento. A loja já estava fechada mas estavam à
espera dela na contabilidade. Ela saiu do carro e agradeceu estar bem vestida naquele dia. Os
calções curtos em pele preta e o casaco de pelo davam-lhe um ar moderno. Ela
sentia-se quentinha com o casaco e com o ego agasalhado. Pelo menos, ele vê-la-ia
no seu melhor. Os seus olhares cruzaram-se, ela seguiu em frente e entrou na
outra secção da loja.
Ela seguiu a sua vida e ele continuou na dele. O momento, ele,
desconhecia. Não tinha importância saber o quando e o onde. Importava saber que
esse momento existia num futuro ou noutra dimensão. Enquanto há vida, há
esperança. E eles… estavam vivos. Era tudo o que interessava.
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