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terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Ele e ela


Ela saiu do carro e de bolsa ao ombro seguiu para a loja. Ele saiu da loja apressado e a correr ainda teve tempo de lhe dizer´: “Olá, Patrícia”. Ela, não esperava aquilo, sorriu e respondeu com um simples “Olá”, e na esperança que ele tivesse ouvido. O facto dele ter pronunciado o seu nome deu um valor maior ao cumprimento. Ela não pronunciou o nome dele mas lembrava-se bem daquele rapaz. Vinte anos depois, ele ainda se lembrava dela e tinha-a reconhecido. Bom, não era difícil, pensou ela. Ela estava "quase" na mesma, como muitos diziam, apesar dela saber que os anos não perdoavam. Ela reconhecia que estava bem e que ele… estava muito melhor. O rapaz de acne na cara que a adorara e quisera namorar com ela,aos quinze anos, era agora um homem muito bem-apessoado: alto, elegante e mais atraente do que nunca. Ela sabia que ele tinha o seu negócio próprio mas nada mais sabia. Ele, dela, sabia quase tudo. Num meio pequeno as notícias sabem-se todas. Ela como não vivia naquele meio desconhecia a vida dele, além do seu trabalho. A ironia era grande: ele fazia, exactamente, o mesmo que o marido dela. A vida corria. Corria para eles como corria para todos os outros. Mas ele só queria que corresse para um dia. O dia em que a conseguisse conquistar. Ele parecia ter adquirido a paciência toda do mundo. Esperar era tudo o que o fazia andar. Sabia que, a cada passo que dava, ficava mais próximo dela.


As vezes que se cruzaram, naquele mesmo sítio, começaram a aumentar. Se marcassem, certamente, não sairia tão bem. Ela, por acaso, ao sair do trabalho para o almoço, muitas vezes, via-o passar na rua em direcção a casa.     


Ela desfez a curva, deu o pisca para estacionar e avistou o carro dele ali estacionado. Parou mais à frente e mesmo em frente à montra da loja. Olhou em frente e ele estava, de olhar fixo nela, do lado de dentro do balcão com o dono do estabelecimento. A loja já estava fechada mas estavam à espera dela na contabilidade. Ela saiu do carro e agradeceu estar bem vestida naquele dia. Os calções curtos em pele preta e o casaco de pelo davam-lhe um ar moderno. Ela sentia-se quentinha com o casaco e com o ego agasalhado. Pelo menos, ele vê-la-ia no seu melhor. Os seus olhares cruzaram-se, ela seguiu em frente e entrou na outra secção da loja.
Ela seguiu a sua vida e ele continuou na dele. O momento, ele, desconhecia. Não tinha importância saber o quando e o onde. Importava saber que esse momento existia num futuro ou noutra dimensão. Enquanto há vida, há esperança. E eles… estavam vivos. Era tudo o que interessava.
 
 

 

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